ENTREVISTAS

Entrevista - Serra da Bodoquena - Bodoquena e o Parque Nacional - Gerson Jara

Segunda-feira, 17 de agosto de 2009, 10:33

Bodoquena e o Parque Nacional
 
A criação do Parque Nacional da Serra da Bodoquena teve desdobramentos que afetou muitas pessoas. Os benefícios que ele traria ainda são esperados.

 

A criação do Parque Nacional da Serra da Bodoquena aconteceu em setembro de 2000, o que poucas pessoas sabem, é que sua criação foi muito além do que delimitar uma área de preservação. Famílias de assentados foram desapropriados, e transferidos para outros assentamentos com a promessa de indenização, a maioria espera até hoje o dinheiro que lhes foi prometido. Os fazendeiros contrários a criação do parque, depois de aceitarem vender suas terras para o Governo, receberam sua indenização em pouco tempo. A entrevista foi realizada com Gerson Jara, proprietário de uma área no assentamento Canaã, na casa do professor Edson Silva.


Susan Cristina Buranelo: Qual sua função nesse assentamento?

Gerson Canhete Jara: Eu juntamente com o professor Edson somos proprietários de uma área do Assentamento Canaã. Compramos a área para ajudar a preservar o lugar, e também para ter um lugar de lazer em Bodoquena.

Susan: Qual o objetivo das atividades que vocês desenvolvem no Assentamento Canaã?

Um dos problemas solucionados na comunidade Canaã, pela Associação de Moradores do Assentamento que nós montamos, foi a transformação de porteiras e colchetes em mata-burros que facilitou o acesso ao assentamento. Seu Pedrinho, atual presidente da associação, junto com alguns moradores da comunidade conseguiram recursos para essa mudança, melhorando o acesso escolar e a coleta de lixo antes muito precária. E nosso trabalho é tentar mudar a mentalidade dos assentados, provar para os pequenos proprietários que o turismo é uma importante alternativa para obter renda.
Um grande problema da região é a criação do Parque da Bodoquena, pois muitos moradores da comunidade foi contra a sua criação, o projeto garantia indenizar todos os assentados que fossem retirados de suas terras, ou serem assentados em outros assentamentos, mas até hoje algumas pessoas ainda não tiveram sua indenização.
Boa parte dos grandes proprietários foram indenizados, não houve um critério social para desapropriação. Alguns moradores gostam de morar na região, e não vendem sua área, mesmo essas pessoas tendo pouca rentabilidade com a produção leiteira e engorda de gado.
Outro caso comum com os assentados é que existe a falta de informação, os pequenos produtores não pedem licença para o IBAMA ou para o IMAP e constantemente são multados por estarem praticando uma ação para sua sobrevivência, como aconteceu com  Dona Viúva, que sobrevive da plantação de mandioca na beirada do rio. Os moradores da região não têm a consciência de que preservando o meio ambiente eles podem ganhar lucros futuramente. Para servimos de exemplo à comunidade e reparar um dano que fizemos ao meio ambiente, construindo uma casa na área em que compramos, transformamos parte da nossa propriedade em  RPPN, que consiste em uma doação para a humanidade, é patrimônio da humanidade, você não pode alterar a área, somente com atividade sustentável e mediante plano de manejo, mediante licenciamento. Pode fazer turismo contemplativo rural, você pode fazer pesquisa e trabalhar com projeto educacional, a área será sempre preservada.
A disparidade entre grande proprietário e pequeno proprietário de terras é muito relevante, os grandes empreendedores da área de turismo passam para o turista que os pequenos proprietários devastam e prejudicam o meio ambiente, mas na verdade o que ocorre é falta de conhecimento e informação por parte dos assentados.

Susan: Na sua opinião, que atividade econômica é mais adequada para a região?


Acredito que a grande saída para Bodoquena seria o turismo sustentável familiar, a prefeitura não tem um corpo técnico para ajudar a comunidade nessa conscientização que o turismo seria uma opção para os assentados. Na nossa avaliação falta suporte da AGRAER que é responsável pela política de sustentação aos assentados do Estado.
O problema ainda é que os assentados investem na engorda de gado, disputando com os grandes proprietários, e não imaginam que a rentabilidade da família poderia melhorar somente com o turismo, com a preservação que futuramente geraria mais turismo, obtendo assim mais lucros. Se tivesse investimento da Secretaria de Turismo com cursos de monitor ambiental, marketing para vender a região, o turismo sustentável familiar na região, turismo rural e ecoturismo seriam a melhor alternativa para o local.
Hoje, grande parte da população tem consciência que é preciso preservar o ambiente. Alguns moradores tentam viver do turismo, fazendo de suas áreas camping para turistas, mas não sabem que existe uma legislação ambiental que obriga o licenciamento do empreendedor.

Susan: O que falta para que o eco-turismo se transforme na principal atividade econômica?

Na nossa avaliação, se a associação de moradores se organizar em forma de cooperativa, seria possível em Bodoquena um turismo diferenciado. Bonito tem um grande turismo, mas você paga por tudo e com um preço muito elevado, e não gera empregos pois funciona somente os grandes hotéis e pousadas, e em Bodoquena poderia ser feito um turismo familiar, rural, sustentável, um turismo diferente para a nossa região. Os moradores recebem turistas na sua área como camping, porque o licenciamento necessário para essa legalização demanda investimento e contratação de gente especializada, então o apoio do município do Estado é essencial.

Susan: Qual a atual estrutura econômica dos assentados?

Boa parte dos assentados vive da produção de leite e engorda de boi, alguns plantam feijão, arroz.


Susan: Um artigo na internet falava sobre erosão dos assentamentos incluindo o Assentamento Canaã, que esse fator dificultava a agricultura e pecuária dessas regiões. É essa a realidade dos assentados?

Em outros assentamentos como o assentamento Sumatra, e o município de Mundo novo sim, mas no assentamento Canaã não. Na região do Canaã existe uma pastagem boa, o solo é diferente, existem áreas que eles conseguem fazer a pastagem e isso gera rentabilidade para o assentado. Nessas regiões o gado tem mais peso, tem leite. Recentemente foram distribuídos 18 resfriadores de leite para os produtores do assentamento, com os resfriadores o pequeno proprietário pode fazer seu comercio gerar mais lucros, ele não fica refém do laticínio, pois poderá vender o leite para quem pagar o melhor preço. Devido o resfriador manter o leite preservado, a qualidade do produto aumenta e a credibilidade do produtor também. Essa distribuição de resfriadores é resultado do trabalho que começamos a desenvolver politicamente em 2006 pela AGRAER e 3 anos depois recebemos a ajuda do Estado. Para mais projetos como esses serem concluídos, seria necessária a contratação de mais um técnico para a região, pois o que trabalha com os projetos dá preferência a questões rurais, de engorda de gado e produção de leite, e não para projetos no turismo que ainda não é fonte de renda para a população.


Susan: Existe no assentamento atendimento médico, escolar aos assentados?

Existe uma escola municipal no assentamento e o atendimento médico está no município de Bodoquena, e sem a existência de uma ambulância, os assentados recorrem a outro tipo de ajuda para chegar ao município quando precisam de assistência médica. Outro problema é o sistema telefônico existente na região que também é ainda muito precário.
Outra questão importante é o asfalto entre Bonito e Bodoquena. Todos os anos eleitorais, políticos prometem asfaltar esse trecho, o que traria muitas mudanças e desenvolvimento para o município, mas ainda não ocorreu, isso mudaria o turismo da região, e a Serra da Bodoquena não seria mais vendida como se fosse de Bonito como ainda é feito, e Bodoquena seria uma grande atração turística assim como Bonito é.
Bonito vende o Parque como sendo deles, mas 70% do parque fica em Bodoquena, é uma questão política que tem que ser encarada, pois Bonito tem interesses econômicos para o parque não ser implantado e que a linha que precisar ser asfaltada entre Bodoquena e Bonito também não seja feita, porque terão que dividir o espaço político, o turismo, isso é questão de divisão de mercado, disputa de mercado.


Cláudia Gabriela Camargo: Eu li que alguns proprietários não cederam a terra, e não querem ser indenizados, querem ficar com a propriedade. Isso prejudicou a delimitação do Parque?


A área do Parque da Bodoquena agora está delimitada, o problema era a área de transição, são 10 quilômetros de margem que é área de preservação permanente. Isso afetou os assentados porque eles já não estavam mais na área do parque, em si, mas na área de proteção. Era preciso, por tanto,uma licença do parque que delimitasse essa área de proteção. Hoje, o parque está completamente demarcado, mas na época não estava. A criação do parque é fundamental para o turismo começar a funcionar realmente em Bodoquena, pr isso se faz necessário que ele aconteça de fato. E não fique apenas como título.

Cláudia Gabriela Camargo: E a falta de uma gestão ambiental por parte da prefeitura, do Estado você acha que isso se deve a que? Porque a implantação do Parque é uma coisa boa para a cidade.

 
Falta de organização dos agentes políticos, do conselho municipal de turismo. A criação do memorial Parque da Bodoquena começou a ser construído, mas está paralisada, a região necessita de uma central de informações, um centro de exposições para o artesanato dos índios Kadiwéus, pois boa parte da reserva de Bodoquena está com os Kadiwéus, e não existe no município um local para a compra dessa cerâmica mundialmente reconhecida feita pelos índios Kadiwéus. A comida típica da região, a cultura da região, a festa de Folia de Reis, uma das melhores festas do Estado, não são exploradas. Precisamos mostrar a comunidade que a cultura deles pode gerar empregos e renda, eles ainda não acreditam que possam ganhar dinheiro com turismo, estamos trabalhando com o processo de convencimento, provando que seria irreversível o turismo na região.


Susan: Como foi a divisão dos lotes para as famílias do Assentamento Canaã?

Foi processo de escolha, as famílias organizadas foram cadastradas, e o TERRASUL
distribuiu as propriedades por pessoa acampada. Então quem estava no acampamento tem uma área no assentamento.


Susan: Por não existir um centro de exposição para expor o artesanato, essa produção não gera lucros para o assentado?

Assim o artesanato gera pouca renda, podia gerar muito mais renda a cerâmica da região. Outro potencial muito grande em Bodoquena, inclusive mapeado pelo Ministério de Desenvolvimento Agrário e pelo Ministério da Integração Nacional, é a piscicultura, que apesar de ter um grande potencial pela quantidade de lençol freático, ainda precisa ser trabalhada, estudada e desenvolvida. A piscicultura pode ser uma alternativa pra Bodoquena, aliás, está dentro do planejamento estratégico do governo federal ambiental. Vai ser implantada em Aquidauana uma escola técnica federal que terá cursos na área de piscicultura. Não é só em Bodoquena, mas Miranda, Aquidauana, Bonito, tem um potencial de lençol freático muito grande e que não é aproveitado para piscicultura. O mel também é importante na região, existem produtores que vivem de mel, mas ainda não existe um sistema de produção, estava previsto a construção de uma casa de mel, mas por falta de organização política parou na primeira etapa, a casa do mel está abandonada no Assentamento Campina, precisam concluir o trabalho de processamento de mel na região. É um importante comércio para a comunidade, esse mel é mundialmente aceito por estar dentro dos critérios ecológicos, mas precisa de uma política definida o seu desenvolvimento, e também na piscicultura.

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