ENTREVISTAS

Para psicóloga, enfrentamento à violência é uma construção coletiva
da Redação
Terça-feira, 20 de abril de 2004, 18:55

Afonso Benites
Maria de Lourdes defende articulação entre órgãos de proteção

Fortalecer a rede de proteção e garantias, para que o enfrentamento da violência sexual cometida contra crianças e adolescentes seja construído coletivamente entre os atores envolvidos, é o que defende a professora Maria de Lourdes Jeffery Contini, psicóloga, doutora em educação e coordenadora de Formação do projeto Escola de Conselhos/Departamento de Jornalismo da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).

Em entrevista ao Caminhos.br, ela fala sobre o Curso de Enfrentamento à Violência e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, previsto no projeto “A Comunicação como Estratégia para o Enfrentamento da Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes no Território Brasileiro”, no âmbito do PAIR (Programa de Ações Integradas e Referenciais de Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-Juvenil no Território Brasileiro), e os cuidados para que a capacitação atenda às demandas locais. Maria de Lourdes reitera que uma atuação integrada dos órgãos de atendimento é muito importante para a não revitimização das crianças e adolescentes que sofrem violência sexual.

 

Caminhos.br: A quem se destina o Curso de Enfrentamento à Violência e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, coordenado pela Escola de Conselhos?

Maria de Lourdes: A idéia original era capacitar conselheiros tutelares e coordenadores Programa Sentinela. Hoje já se tem uma nova concepção, uma visão mais ampliada do sentido de rede, tanto da Rede de Proteção quanto de Garantias. Então, o nosso público engloba conselheiros tutelares e de direitos, coordenadores do Sentinela, professores de escolas públicas, profissionais de saúde e da área de defesa e responsabilização, ou seja, todos os atores que atuam na rede.

 

C.: A ampliação do público foi uma forma de envolver mais a comunidade no enfrentamento a esse tipo de crime?

M.L.: É importante dizer que esse programa de enfrentamento à violência sexual infanto-juvenil tem toda uma concepção de conhecer e envolver a comunidade. A capacitação não é isolada dessa comunidade, pelo contrário, é parte dela.Tanto que, pessoas da cidade ou região que trabalham no enfrentamento são convidadas para atuar como professores na capacitação e, terminado o curso, dar continuidade ao trabalho no local.

Além delas, temos um grupo que chamamos de “suporte técnico”, que nos ajuda na composição desse quadro. Temos também especialistas na área da criança e do adolescente que atuam como consultores e que podem, quando necessário, indicar nomes.

 

C.: Quais são os cuidados tomados pela coordenação para que a capacitação atenda, da forma mais adequada possível, às demandas locais?

M.L.: Os cuidados são vários. Num primeiro momento, ocorre uma visita oficial da equipe técnica à cidade, quando então é feito o Diagnóstico Participativo. É quando a equipe verifica as condições daquele local. Posteriormente, num Seminário, esse diagnóstico é apresentado à comunidade. Ele é tomado como parâmetro para a montagem do Plano Operativo de enfrentamento local. Além disso, nós temos a sondagem feita pela Escola de Conselhos com os participantes do Seminário. Perguntamos como eles vêem a questão da exploração, do abuso, do tráfico, enfim, podemos medir o conhecimento que têm sobre o tema. Tudo isso, padronizado, serve de instrumento para que a capacitação seja elaborada da forma mais adequada possível à realidade local.

 

C.: Qual é o mais grave entre os fatores que dificultam o enfrentamento à violência sexual infanto-juvenil?

M.L.: Não podemos ter uma visão simplista do fenômeno, que é bastante complexo e causado por vários fatores. A sondagem deixa claro que a capacitação é algo extremamente solicitado. As pessoas se sentem inseguras ante determinadas situações e pedem uma orientação. Mas também não existe uma unidade no trabalho desses atores. O Conselho Tutelar trabalha de uma forma isolada, o Sentinela de outra, desvinculados de políticas públicas. O que se percebe claramente é que não há a concepção de rede, de um trabalho integrado, articulado, o que pode minimizar essas dificuldades. Na verdade, o importante é montar uma Rede de Proteção e Garantias, exatamente para que haja possibilidade de enfrentamento do problema.

 

C.: Existe algum mecanismo de avaliação do curso, dos professores, algum monitoramento após a capacitação?

M.L.: Durante o curso existe um instrumento para avaliação por parte dos alunos e professores. A equipe técnica também se reúne para avaliar o processo como um todo, até para que se tenha clareza de que cada curso é único, em função da realidade local. Algumas questões comuns, porém, não podem ser esquecidas, para que não haja fragmentação dos conteúdos.

É por isso que há também uma previsão de capacitação continuada a distância. Existe uma equipe de assessoria técnica, dentro do PAIR, responsável pelo monitoramento de todo o processo de construção da rede, complementando a capacitação já realizada. Essa equipe volta ao local para fazer o monitoramento do pessoal, para que eventuais falhas sejam corrigidas.

Todo esse trabalho busca fortalecer a rede de proteção e garantias, para que o enfrentamento da violência sexual infanto-juvenil possa tornar-se uma construção coletiva dos atores dessa rede. Acreditamos que essa é a maneira mais efetiva para combater esse tipo de violência.

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