ENTREVISTAS

Representante da Rede ANDI fala sobre pesquisa de mídia em MS
Márcia Dietrich
Quarta-feira, 6 de outubro de 2004, 19:01

Fabrina Martinez
Marcus Fuchs da Rede ANDI

Profissionais de comunicação, especialistas, professores e alunos dos cursos de jornalismo de Campo Grande (MS) estiveram reunidos nesta terça-feira (5), no auditório do Bloco V  da UNIDERP (Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal), para o lançamento da primeira edição da pesquisa A Criança e o Adolescente na Mídia de Mato Grosso do Sul, realizada pela ong Girassolidário, em parceria com a Rede ANDI Brasil (Agência de Notícias dos Direitos da Infância), a qual integra com outras 10 entidades de diversos estados brasileiros.

A pesquisa é uma análise da produção jornalística veiculada pelos jornais impressos Correio do Estado, Folha do Povo, O Estado de Mato Grosso do Sul, de Campo Grande (MS) e O Progresso, de Dourados (MS), que aborda temas relacionados à infância e adolescência de maneira geral. Além das jornalistas Patrícia Nascimento e Juliana Feliz que fazem parte da coordenação da Girassolidário e do núcleo de jornalismo da entidade, respectivamente, estava presente o diretor de planejamento da ANDI, Marcus Fuchs, que em entrevista ao site Caminhos falou sobre a agência desde a sua criação, atuação e avanços.

Caminhos: O senhor poderia explicar como funciona a ANDI e como são estabelecidas as parcerias?
Marcus Fuchs: A ANDI (Agência de Notícias dos Direitos da Infância) surgiu em 1991 logo depois da promulgação do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e logo depois que o Brasil ratifica a Convenção Internacional dos Direitos da Criança, avaliando que os meios de comunicação, os jornalistas, profissionais de imprensa poderiam ser importantes aliados da promoção da defesa dos direitos da criança e do adolescente. Inicialmente a ANDI faz um trabalho de mobilização especialmente dos jornalistas, ou seja, identificando bons exemplos, realidades que deveriam ser denunciadas, bons projetos que já apontavam soluções para a realidade da infância e da adolescência e oferecendo essas informações, esses dados, os contatos desses projetos aos jornalistas para que produzam matérias sobre as temáticas da infância e adolescência.

De 91 a 96 a gente percebeu que isto estava dando certo.
Os profissionais de comunicação tinham interesse pela pauta da infância, que estavam interessados em deixar de cometer erros, gostariam de tratar das questões da infância com a terminologia correta, falando da legislação com os detalhes que a legislação tem e tal. Mas a gente ainda não tinha uma radiografia se essa impressão que vinha das ações de mobilização se confirmavam na qualidade das matérias. Então a gente passa, em 1996, a monitorar, acompanhar, clippar, classificar, 50 jornais do Brasil inteiro, para analisar quais os principais temas, quais as principais fontes que eram ouvidas; se em Educação, por exemplo, também eram ouvidas as crianças, ou eram só o secretário de Educação, o prefeito o ministro; se a terminologia estava  sendo usada corretamente, enfim, dissecando quase todas essas matérias para verificar como era essa cobertura. A gente sabia que estava crescendo o número de matérias, mas não sabia se a qualidade acompanhava esse crescimento quantitativo.

Aí, nesse ano, a gente encontra, nesses 50 jornais, 10.700 matérias sobre infância e adolescência, que nós estratificamos por temas, por fontes, por sub-temas, faixa etária, se era uma matéria de denúncia ou se era em busca de soluções, se além da denúncia ela investigava as soluções e tal. De lá até agora, a gente vem aprimorando essa metodologia. Em 1999 surge o movimento de organizações no Brasil interessadas em aproveitar isso que a ANDI fazia no âmbito nacional, nos seus Estados. Então começa o projeto Rede ANDI Brasil com a ANDI em Brasília, uma ONG de Salvador, que é a Cipó, uma de Manaus, que é a Uga Uga, e outra de Pernambuco, em Recife, que é a Auçuba. Dessas 4 instituições, hoje já são 11 que repetiram essa mesma metodologia: fazem mobilização, fazem monitoramento e análise que resultam nessas pesquisas. E fazem também um trabalho de qualificação de estudantes, nas universidades, de seminários com os jornalistas em eventos, nas redações e tal. Então hoje já somos 11 ONGs fazendo isso no Brasil, sendo a Girassolidário uma das integrantes dessa rede, que nós denominamos de comunicação pelos direitos da infância e da adolescência.

A partir dessa experiência brasileira, a rede foi ampliada e hoje já está em 9 outros países da América Latina, que crêem no que se fez aqui e na qualidade que se conseguiu no jornalismo brasileiro sobre infância e adolescência. Longe de estar tudo resolvido, ainda há muito problema, ainda há muito erro, ainda há, enfim, realidades que já poderiam ter sido resolvidas, mas já há muitos resultados interessantes. O que a gente quer com análises como essas é identificar onde estão os limites e onde estão as oportunidades para esta cobertura e, a partir disso, oferecer mais ajuda ainda aos estudantes, às universidades, aos veículos, aos conselhos, aos sites, a tudo que queira trabalhar a comunicação da infância.

C: A qualificação que a ANDI oferece é adaptada a cada realidade local?
MF: Claro. Por isso o nosso interesse em não fazer em Mato Grosso do Sul um trabalho com os veículos daqui, com as fontes daqui, a partir de Brasília, ou a partir de São Paulo, ou de onde fosse. Firmamos uma aliança com uma ONG local, com a rede de organizações que atuam na temática da infância e da adolescência do local, as universidades do local, os meios de comunicação do local, os jornalistas do local, porque eles conhecem muito melhor a realidade local do que quaisquer estudiosos, especialista ou pesquisador que venha de fora. Agora, o que se percebe é que – e isso a gente identifica nas pesquisas da ANDI, e hoje acompanhamos 61 jornais e não os 50 que a gente acompanhava em 96 – as oportunidades e os limites são muito parecidos de um lugar para outro. Há uma diferença sobre a estrutura dos veículos, a formação, às vezes há a concentração dos meios, mas na compreensão sobre a realidade da infância há uma semelhança nos vários cantos do Brasil, porque as negações aos direitos de crianças e adolescentes estão em todos os lugares desse nosso país.

C: Esses últimos itens – estrutura, formação, concentração dos meios – seriam os limites da imprensa?
MF: Sim, limites da realidade e limites também do fazer jornalístico. Às vezes poderia ser diferente, mas porque as redações estão com cada vez menos jornalistas, os jornalistas veteranos estão sendo substituídos por jovens, o número de páginas está diminuindo, o poder econômico às vezes está em cheque. Então, a capacidade do fazer jornalístico é que encontra muitos limites. É muito pouca gente para fazer cada vez mais coisas e é por isso que a gente oferece essa ajuda, para encurtar a distância entre as iniciativas e os veículos de comunicação.

C: Isso poderia ser uma explicação para a maioria das matérias não terem fontes, serem cópias de releases?
MF: Vamos imaginar a mídia impressa: o cara sai da redação com 4 ou 5 pautas, e às vezes ele não consegue apurar todas bem, não consegue ouvir todas as fontes que deveria para dar uma contextualização melhor, para diversificar as opiniões na matéria. Me chamou muito a atenção por exemplo – e esse dado é daqui – que um grande percentual das matérias não tem fontes. O jornalista se senta na frente do computador e baixa o texto. E a gente sabe que para a mídia ser plural, para o jornalismo ser plural como ele deve ser, deve ouvir quem está desse lado, quem está do outro, quem está no meio, para que a sociedade, conhecendo as várias opiniões, forme o seu julgamento, a sua decisão.

C: Existem critérios mínimos a serem respeitados...
MF: Claro. Agora, acho que o grande segredo do projeto da Gira, da ANDI, da Rede, é que, ainda que a gente aponte limites para a cobertura, a gente trabalha esses limites como oportunidades para apoiar o trabalho dos jornalistas, para dizer que estamos à disposição para ajudar na identificação dos dados, para sugerir novas fontes, para contribuir com a apuração. Não para fazer um “raio X” assim: “Você é que errou!”. Não. É para dizer: “Olha, há uma oportunidade e esses limites a gente consegue superar; basta que a gente queira”. Se vocês quiserem, nós estamos aqui. (Márcia Dietrich é acadêmica de Jornalismo da UFMS, sob supervisão do Editor)

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